quarta-feira, 16 de setembro de 2015

"As mudanças de Agatha" Capítulo 1

“Certezas de um futuro incerto”
Nós seres humanos adoramos mudar, mudamos os nossos gostos, o nosso estilo, a cor do cabelo, de casa, bairro, cidade e até de país se for preciso. Mas por que será que a mudança ainda nos assusta?
12/01/2015 às 9:00 horas da manhã, eu estava em frente ao meu notebook paralisada criando coragem para ver o resultado do vestibular. Morar em São Paulo e cursar audiovisual faz parte dos meus planos desde o meu 3º ano do ensino médio, mas agora que esse sonho pode virar realidade sinto minhas pernas tremerem. É que a mudança é cheia de certezas em um futuro incerto.
– Agatha, que medo é esse de um resultado de vestibular? Pergunta Catarina sentada na cama.
– Não é só um resultado, é a minha vida! Respondo.
– Nossa que drama! Diz Catarina levantando-se da cama.
Catarina pega o notebook antes que eu  reagisse.
– Agatha, as notícias não são boas, você vai ter que ser forte. ~ Catarina começa a falar com voz e expressão de lamentação. –Infelizmente, você vai ter que conviver com a saudade de sua irmã linda por um bom tempo. Você passou! Ela termina de dizer e sorri para mim.
Suspiro aliviada.
-Isso é jeito de me falar o resultado do vestibular? Pergunto surpresa.
-Você queria que eu dissesse o quê? Catarina pergunta com um sorriso cínico.
– Agatha você passou!? Respondo.
– Mas só isso não tem graça. Catarina responde e em seguida começa a mexer no celular.
Sempre que Catarina vai dar alguma notícia, ela começa com “As notícias não são boas” eu não sei como ainda não me acostumei, mas em vez de ficar pensando em que se passa na cabeça de minha irmã preciso dizer o resultado do vestibular para minha mãe. Vou até o seu quarto onde ela passa todas as manhãs atualizando o site da revista que trabalha antes de ir para a empresa. Entro no quarto com um sorriso, ela sorrir para mim e me abraça.
Quando duas pessoas se gostam até pelo sorriso elas conversam.
-Você é o meu orgulho. Parabéns! Diz minha mãe enquanto estávamos abraçadas.
-Obrigada mãe! Agradeço e paramos de nos abraçar. Ela para por um estante e olha fixamente dentro dos meus olhos.
-Você precisa ligar para o seu pai. Diz minha mãe com um tom de quem está dando uma ordem.
Desvio o olhar para o teto do quarto tentando não começar uma conversa sobre o meu pai.
-Ele merece saber, Agatha. Continua minha mãe.
-Se você quiser pode dar a notícia, mas eu não. Respondo e saio do quarto antes que ela me questionasse.
No final de 2012, minha mãe descobriu que o meu pai estava a traindo com a Daiane, enfermeira que trabalha com ele, foi um grande choque para minha família. Sabe aquela história que o mundo acabaria em 2012? Pois é, o meu acabou. Minha mãe resolveu divorciar, meu pai saiu de casa e foi morar com a sua nova mulher, e isso, me deixou com mais raiva dele. Minha mãe sempre dizia que eu ia minha irmã não tinha nada a ver com o ocorrido e que apesar de tudo ele era o nosso pai, mas eu não conseguia perdoar. Depois da descoberta da traição eu o tirei completamente da minha vida, não queria saber nada dele e não fazia questão que ele soubesse de mim, e assim, estamos sem se falar há dois anos.
Rapha: Passou? 09:45
Agatha: Passei!!! 09:46
Rapha: Posso ser egoísta por não querer que você vá embora para outro estado? <3 09:50
Agatha: Pode. <3 09:52
Há diversas maneiras de ser feliz na vida, eu por exemplo, fico feliz em comer,  assistir minhas séries preferidas, escutar uma boa música, sair e ficar perto de quem eu gosto, mas a felicidade de conseguir realizar um dos meus sonhos eu nunca tinha sentido, e essa, é mágica.
20/02/2015
Saber que sua vida vai mudar completamente em um mês, casa, estado, pessoas, lugares novos, é uma ansiedade que aumenta a cada dia que passa. Foi assim que passei o último mês, e agora, falta apenas uma noite!
Rapha: O Otávio terminou comigo, tô arrasada! 19:58
Agatha: Sériooooo? Por quê? 20:00
Rapha: Disse que cansou de namorar. 20:00
Rapha: Vem aqui em casa? 20:00
Rapha: Tô muito mal! 20:01
Agatha: Tô indo! 20:01
Sabe aqueles namoros que você pensa que é para sempre? Então, eu achava que o Otávio e a Raphaela fossem um deles. Otávio um cara ruivo e a Raphaela mulata, na sociedade em que vivemos esse tipo de namoro é uma afronta a humanidade, os dois já sofreram e sofrem muito preconceito, inclusive sofreram da própria família do Otávio. Nem com a família dele sendo contra, ele desistiu, pelo o contrário, ele fez a família aceitar e engolir o racismo. Passaram por tanta coisas juntos para no final ele terminar o namoro porque cansou.
Talvez o para sempre só existe para casais que caem juntos do 8º andar.
Começo a rir desse meu último pensamento enquanto esperava o elevador. 8º andar é onde eu moro, a Rapha, mora no 2º , nos conhecemos inclusive no elevador, foi na primeira semana que mudei para Belo horizonte. Eu estava com umas revistas de moda que minha mãe pediu para comprar, a Rapha, quando viu as revistas logo começou a falar que adorava moda e que queria ser modelo, e assim, deu início a uma grande amizade.
Toco a campainha, a porta se abre, as luzes se acendem e  “surpresa”!
Confesso que foi surpresa mesmo, tomei um susto daqueles. A Rapha preparou uma festa de despedida para mim, estavam todos os meus amigos que conheci durante o ano que morei em Bh.
-Devia ter desconfiado, é bem a sua cara fazer umas coisas dessas. Digo a abraçando
-Você pensou mesmo que deixaria você ir embora sem uma festa?  Rapha pergunta colocando a mão na cintura.
-Claro! Respondo colocando a mão na cintura também e então rimos uma da outra.
A festa estava ótima, rimos, dançamos, relembramos vários momentos bons. Estava tudo perfeito, estava…
Diego: Não vá embora, fica comigo. Eu amo você! 22:49
Meu coração disparou na mesma hora. Diego é o meu ex-namorado, terminamos no final de novembro por brigas, ciúmes e mentiras. Eu o evitei totalmente depois desse dia, não o vi, não conversei e agora essa mensagem..
Respirei fundo e respondi.
Agatha: Eu não vou desistir dos meus sonhos. 23:00
Diego: Os sonhos mudam, Agatha. Você vai mesmo me deixar por causa de um curso que você pode fazer aqui? 23:02
Agatha: Não tem como eu deixar uma pessoa se ela já não faz mais parte da minha vida. 23:04
Eu estava mentindo, ele faz parte sim da minha vida. Eu ainda não o superei, ainda o procuro em outros braços, ainda tenho vontade de ligar para ele e ficar comentando o que aconteceu na minha série preferida, ainda ando na calçada pisando somente nas linhas como nós fazíamos e ainda continuo pedindo pizza de metade calabresa e metade 4 queijos, apesar de querê-lo todos os dias, eu sabia que já tínhamos chegado ao fim. Quando o ciúme fica maior que o amor em uma relação, é sinal que chegou o fim da estação.
Diego: Não? 23:05
Diego: Fique sabendo que você fazia parte da minha. FAZIA! 23:05
Diego: Se amanhã você for embora, pode me esquecer de vez, porque é isso que vou fazer. EU VOU TE ESQUECER! 23:05
Receber uma mensagem de uma pessoa que você gosta dizendo que vai te esquecer, não é fácil. Dói, machuca. Como eu posso querer esquecer uma pessoa que um dia me fez viver momentos felizes? Como eu posso esquecer uma parte da minha história? Como alguém tem coragem de dizer isso a uma pessoa?
Bloqueio o meu celular e resolvo não mandar mais nenhuma mensagem. Não vale a pena insistir se você sabe que não há solução.
Resolvo ir embora, aquela conversar mexeu comigo, ele ainda mexe comigo, não queria ficar com uma cara péssima perto de pessoas que mesmo eu indo embora não vão me esquecer, eles não merecem isso e eu também não. Despeço de todos com a desculpa que amanhã eu viajaria cedo.
-Você pode enganar todos com essa desculpa, menos eu. Diz Raphaela toda confiante.
-Eu sei disso. Respondo com um sorriso falso, só para mostrar que estava tudo bem.
-Amanhã conversaremos. Diz Raphaela com uma cara séria.
-Ok, Dona Raphaela. Respondo andando pelo corredor do 2º andar.
7:00 horas o despertador começa a tocar confirmando o que eu estava esperando há muito tempo, está na hora de mudar! Minha mãe e minha irmã já estavam acordadas e me esperando para o café da manhã. As duas irão comigo até São Paulo para constatar que cheguei segura, coisa de mãe.
-Nossa Agatha, que olheiras enormes. Implica Catarina.
-As suas estão maiores. Retruco enquanto sentava na cadeira.
Tomamos café juntas, até parecia comercial de margarina. Naquela manhã, havia algo no olhar de minha mãe que eu não conseguia decifrar, deve ser preocupação, medo, não sei, só sei que não deve ser fácil ver uma filha sair de casa aos vinte anos para ir atrás de um sonho, mas ela sabe que eu sou como um pássaro e preciso voar.
Levanto-me da mesa e vou acabar de arrumar minhas coisas. Fazer as malas nunca foi uma das 10 coisas que eu mais gosto na vida, mas sem malas não há mudanças.
Rapha: Tô subindo! 8:15
Agatha: Ok. 8:16
Raphaela chega no meu quarto e para na minha frente esperando uma explicação.
-O que foi Rapha? Pergunto, embora já sabia o que era.
-O que aconteceu ontem? Pergunta Raphaela.
-Nada demais, conversei com o Diego ontem. Digo tentando não mostrar nenhuma reação.
Raphaela suspira e senta na cama.
-Fala logo, Agatha. Diz Raphaela olhando nos meus olhos
-Ele queria que eu desistisse do curso para ficar aqui com ele, disse que me amava, mas como eu disse que não desistiria ele falou que no momento que eu fosse embora me esqueceria. Falo sem pausar e olho nos seus olhos esperando um consolo.
-Hum. Diz Raphaela
-Hum? Pergunto
-O que você sentiu? Pergunta Raphaela.
-Que eu sou descartável como um lixo. Respondo olhando para o chão do quarto.
-Nossa, você pegou pesado com você. Raphaela diz indignada.
-Eu tenho muito orgulho de você. Continua Raphaela.
-Por quê? Pergunto sem nenhum entusiamo.
-Você é forte, Aghata. Você não tem medo de mudança, você vai mudar para outro estado longe de todos que conhece e ama para ir atrás de um sonho. Sim, eu tenho orgulho de você. Diz Raphaela olhando nos meus olhos.
Eu tenho medo de mudanças sim, como todo mundo. Eu gosto de mudar, principalmente quando é pro meu bem estar, mas isso não quer dizer que mudar de caminho não me apavora.
-Eu amo você! Respondo olhando nos olhos de Raphaela. Ela me abraça e diz eu também.
 Minha mãe entra no quarto para dizer que já estava na hora de irmos. Como iríamos de carro, preferimos ir cedo para não chegar muito tarde em São Paulo. Minha mãe, Catarina e a Rapha me ajudaram a levar as malas, quando abri a porta, ele estava lá, parado com um buque de rosas na mão.

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